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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Violência racial – A tentativa de redução do ser negro

 
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  Imagem disponível em: unegroriodejaneiro.blogspot.com
Por Gustavo Fernandes e Fernando Monteiro

 
            Nas últimas décadas, a desigualdade racial existente no Brasil foi evidenciada por inúmeros estudos estatísticos, tendo como marco referencial as pesquisas de Nelson do Valle Silva e Carlos Hasenbalg, ambas de 1979. A antes idolatrada democracia racial foi desta forma desmascarada como mito, pois não condizia com os achados de pesquisa publicados por esses estudos, que indicava a existência de um processo histórico e persistente de marginalização do negro na hierarquia socioeconômica vigente.

            Contudo, as causas e consequências dessa desigualdade ainda não são objetos de consenso dentro do âmbito acadêmico, uma vez que a denúncia dessa segregação veio acompanhada de um contraponto: a noção de que, embora exista racismo na sociedade brasileira, em se tratando de relações de sociabilidade e convívio entre brancos e negros, o Brasil ainda estaria em uma posição mais privilegiada se comparado a países que tiveram uma história de intensos conflitos e violência interracial, como as leis Jim Crow nos Estados Unidos e o Apartheid na África do Sul. Todavia, relatórios publicados nos últimos anos evidenciam um fenômeno contraditório a essa noção, o genocídio do povo negro, decorrente não só da formulação de políticas públicas que deixam de contemplar esse segmento da população, o que poderia ser enquadrado como “racismo institucionalizado”, mas também da marginalização histórica que aflige a população negra que a enclausura em espaços flagelados pela miséria e pela insalubridade.

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Imagem disponível em: www.geledes.org.br
            A partir desses achados um novo tipo específico de violência surge: a violência racial, ou seja, aquela cujos processos e consequências se direcionam a um grupo racial em particular, no caso, a população negra. Rodnei Silva e Suelaine Carneiro, autores do relatório Violência Racial, uma leitura sobre os dados de homicídios no Brasil, apontam de forma pertinente de que a violência contra o negro não se esgota apenas no homicídio por ele sofrido, uma vez que “a preocupação com a violência deveria ir além da brutalidade que se encerra na morte. Ela deveria ser apreendida também no desrespeito, na negação, na violação, na coisificação, na humilhação, na discriminação [do negro].” Acreditamos ser por essa perspectiva que devemos discutir a violência a qual está submetida a população negra, de modo a poder englobar todos os tipos de violência que esse segmento populacional sofre por conta de sua posição social, tanto física quanto simbólica.
                             
                                     
            Um exemplo flagrante de violência racial e que tomou os noticiários nos últimos meses, tanto da mídia tradicional corporativa quanto nos espaços virtuais construídos pela mídia alternativa, o midiativismo, se trata das consequências causadas pela militarização em curso da periferia e da favela, que acaba resultando no acirramento dos conflitos nesses espaços, com maior número de desaparecimentos, autos de resistência e homicídios registrados. Vale destacar que tal violência atinge toda a população das favelas, incluindo brancos pobres; contudo, o processo histórico que envolve intrinsicamente a relação do povo negro com a favelização torna essa população alvo prioritário imposta pelo desenvolvimento da militarização.

Leia o artigo completo clicando abaixo.
 Postado por  Suellen De Jesus Reis

sexta-feira, 29 de agosto de 2014




MAIS UMA VEZ NO FUTEBOL!


#FechadoComOAranha, banalização da violência, Grêmio, I have a dream, Martin Luther King, Santos, somos todos macacos, violência no Futebol, violência racial,
 Imagem disponível em: www1.folha.uol.com.br


GOLEIRO DO SANTOS É ALVO DE RACISMO PELA TORCIDA DO GRÊMIO


Após o episódio de racismo, o goleiro Aranha emite nota de repúdio citando Martin Luther King. Veja abaixo:


29 de agosto de 2014

Gostaria de dizer a todos os interessados nesse polêmico e triste episódio de ontem, que depois de uma noite mal dormida, acordei aliviado e satisfeito, porque ao meu modo de ver, o racismo de qualquer modo ou gênero é um mal e todo mal não detectado cresce e se fortalece.

Ontem, esse mal mostrou a sua cara e isso foi bom porque tenho certeza de que será, mais uma vez, combatido e enfraquecido, como em 1963, quando Martin Luther king fez o seu famoso discurso "I Have a Dream"
"Eu tenho um sonho. Que um dia viveremos em uma nação onde as pessoas não serão julgadas pela cor da pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter" .

ARANHA. (Nota oficial publicada pela Assessoria de Imprensa) 



Postado por SUELLEN DE JESUS REIS



quinta-feira, 5 de junho de 2014


TOLERANTES À VIOLÊNCIA?


Essa semana queremos compartilhar esse artigo divulgado na CBN, pelo Alexandre Lemos, que retrata a experiência da Srª Suzana, vítima de tantas formas de violência. 

Essa história de vida e sobrevivência nos remete a reflexão sobre as estatísticas no Espírito Santo que comprovadamente é o Estado com maior índice de homicídios contra as mulheres. 

Leia o artigo e deixe a sua contribuição.

ES lidera estatísticas nacionais de violência contra mulheres


Há 4 anos, a cabeleireira Susana, de 50 anos, viveu um drama capaz de comover os corações mais insensíveis. Ela foi vítima do seu próprio companheiro, o mesmo a quem, durante dois anos, havia se dedicado totalmente e entregue sua confiança de esposa, de mãe e de amiga. O relacionamento dela com seu companheiro era comum, não tinha muita discussão, apenas coisas simples como em toda vida a dois. Com o passar do tempo, ela descobriu que ele era usuário de drogas, o que a fez perder a admiração pelo marido.

Quando ele percebeu que ela não mais queria estar ao seu lado, apresentou um comportamento diferente e passou a ser agressivo. Porém, ela não acreditava que um dia pudesse chegar ao ponto de agredi-la. 

Num fim de tarde de sábado, em janeiro de 2010, ele a convidou para fazer um passeio. Depois de ter entrado no carro, ela não se lembra de mais nada, apenas do momento quando acordou numa mata em Barra do Riacho, Aracruz. Ao acordar, ainda era madrugada e não conseguia enxergar muito o que estava à sua frente. Foi quando ela se deu conta que havia sido espancada.

Susana teve que passar por cirurgia, pois havia quebrado o maxilar e sofrido um traumatismo craniano. Depois de alguns dias de internação, ela foi se lembrando do que havia acontecido e procurou ajuda da polícia. Ficou amparada por medida protetiva durante seis meses.

Hoje, Susana pede que todas as mulheres, ao serem ameaçadas, que denunciem, e que não se calem. E espera que a sua história sirva de exemplo.

“O que eu peço às mulheres hoje em dia, que elas possam ser não a primeira Susana, mas essa segunda Susana, essa de agora, essa que quase morreu, essa que passou por uma casa abrigo, essa que sofreu. Que elas não se esqueçam e não passem o que Susana passou. E que elas tomem coragem de se reunir, de buscar alguém da Justiça, e nunca contar para qualquer pessoa”.

Números

Diferente da história de Susana, que conseguiu sobreviver às agressões, outras tantas não conseguiram o mesmo. Elas acabaram virando índices, e entraram na estatística, aumentando o número de mulheres mortas no Estado.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil mortes de mulheres por conflito de gênero, especialmente em casos praticados por parceiros íntimos. A pesquisa mostra que o Espirito Santo é o estado brasileiro com a maior taxa de feminicídios.

Dados da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Espírito Santo também indicam que 10% dos assassinatos de 2013 foram de mulheres. De janeiro até 23 de fevereiro deste ano, do total de homicídios registrados, 8% tinham mulheres como vítimas. Das mulheres assassinadas, 77% estão na faixa etária entre 13 e 34 anos.

Dificuldades no atendimento

As mulheres vítimas de violência passam por diversas dificuldades. Membro do Fórum Estadual de Mulheres, Eusabeth Vasconcelos, aponta que um dos problemas que as mulheres encontram é logo quando entram nas delegacias.

“Um dos entraves é o acolhimento. Elas chegam na delegacia e os policiais perguntam se ela vai representar ou não vai representar? Ela não sabe o que é isso”.

Rede em Defesa da Mulher

Diante dessa realidade de violência contra a mulher capixaba, desde o último ano a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Vitória passou a funcionar 24 horas, inclusive aos sábados e domingos, período em que a violência doméstica mais acontece. Ainda na Grande Vitória existem delegacias especializadas na Serra, Cariacica, Vila Velha e Guarapari, mas não funcionam 24 horas.

No interior do Estado o problema é ainda mais grave, pois apenas nos municípios de Colatina, Cachoeiro de Itapemirim e São Mateus há delegacias especializadas, mas que também não funcionam 24 horas. Em Linhares, o espaço onde funcionará uma delegacia ainda está em reforma.

Para a subsecretária de Movimentos Sociais da Casa Civil do Estado, Leonor Araújo, há necessidade de ampliação do atendimento social à mulher.

“O nosso maior problema hoje em relação à políticas para as mulheres é o fortalecimento da rede que dá o subsídio para essa mulher que sofreu a violência. A gente tem que fortalecer todos os centros, criar mais centros especializados de atendimento à mulher. Nós temos que criar mais delegacias especializadas de atendimento à mulher. Nós precisamos ampliar essa rede”.

Em Vitória, além do atendimento policial especializado funcionando 24 horas, 200 mulheres também fazem uso do Botão do Pânico. O objetivo é fazer com que elas acionem o botão quando se sentirem ameaçadas. O aparelho permite a localização da vítima e o envio imediato de uma viatura policial para o socorro da ameaçada. 
Segundo a juíza Hermínia Azoury, Coordenadora Estadual da Mulher em situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário, o mais interessante é que não está ocorrendo reincidência de homens agressores.

“Nenhum agressor que foi processado ou que estava sob medida protetiva, cujas vítimas tinham em posse o botão do pânico, reincidiu porque eles sabiam que seriam presos. Esse aspecto inibidor foi extremamente relevante”.

Todos os dias uma nova mulher recebe o equipamento, transferido de outra em situação de menos risco. Há quase um ano do seu lançamento, o botão precisou ser acionado sete vezes, segundo o próprio Tribunal de Justiça, resultando em três prisões e em quatro mandados de prisão.

As histórias de Marias, Fátimas, Penhas, Adrianas e tantas outras que perderam suas vidas de forma prematura contribuíram para escrever essa triste página da história do Espírito Santo. Personagens da vida real que poderiam ter tido um final diferente.

Fonte: ALEXANDRE LEMOS | aljunior@redegazeta.com.br
Rádio CBN Vitória (93,5 FM)
Publicado: 08/03 - 10h34  


Postado por DAIANA DE SOUZA FRANCO MILANI

quarta-feira, 21 de maio de 2014


#SOMOSTODOSMACACOS



Recentemente vislumbramos, nos incomodamos e quem sabe até mesmo participamos de uma manifestação coletiva nas redes sociais, após uma postagem do jogador de futebol Neymar, onde demonstrou indignação diante do ato de racismo sofrido pelo jogador Daniel Alves, na Espanha. 

A atitude do Neymar ganhou reconhecimento e seguidores, tanto famosos como da população em geral. Diante da amplitude da ação é possível perceber a ferramenta que a internet pode ser. Entretanto, está também pode querer camuflar um falso entendimento de que todas as informações e opiniões abrangem todos os brasileiros. Criando a ideia errônea de amplitude e erradicação do racismo. Para aprofundamento desta reflexão, sugerimos a leitura do artigo da escritora Cora Rónai.

Contra a discriminação

Por Cora Rónai em 06/05/2014 na edição 797

Reproduzido do Globo, 2/5/2014; intertítulo do OI
      
Esta semana [passada], enquanto a internet discutia se #somostodosmacacos ou #somostodosbananas, um pequeno grupo muito especial de pessoas, reunidas sob os auspícios da Unicef no Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard, aprofundava a questão: o que é que se pode fazer, efetivamente, para acabar com a discriminação, essa irmã gêmea igualmente horrenda do racismo? Como dar voz às comunidades carentes, às favelas, às tribos, às áreas mais frágeis da sociedade?

Todos sabemos que é conversando que a gente se entende – mas, para que esse entendimento seja possível, é preciso, antes, que a conversa se dê em pé de igualdade, e que todos sejam ouvidos. Nisso, infelizmente, o universo digital ainda deixa tanto a desejar quanto o mundo em que (fisicamente) vivemos. Basta lembrar que boa parte do planeta ainda não tem acesso à internet; e que ter este acesso é apenas um primeiro passo.

O Digitally Connected reuniu pesquisadores, ativistas e jovens comunicadores de diversos países para pensar sobre como melhorar e democratizar o uso da internet para quem mais precisa dela.

O Brasil foi representado por Rene Silva, que criou o jornalzinho Voz da comunidade no Complexo do Alemão quando era criança e hoje, aos 21 anos, já tem larga experiência em comunicação, e por Paulo Rogério Nunes, do Instituto Mídia Étnica, uma organização modelar no combate ao racismo na mídia. Paulo Rogério é editor do Correio Nagô, blog de notícias dedicado a diversidade e direitos humanos. Ele escreve para a revista America’s quarterly sobre inclusão social no Brasil. Paulo está testando, com jovens quilombolas da Ilha da Maré, na Bahia, uma tecnologia pioneira chamada Vojo, que prescinde de smartphones, computadores ou tablets para o acesso à internet. Conversei com ele, por e-mail, sobre o Digitally Connected: valeu a pena?

“Foi muito positivo”, avaliou. “Saímos com muitos contatos e ideias. No caso do Vojo, estamos tentando envolver pesquisadores do MIT e de Harvard, bem como fazer cooperação com outros países: já estamos em contato com grupos que trabalham na Colômbia e na Etiópia. A ideia também é nacionalizar o projeto, tornando a ferramenta disponível a outras comunidades, especialmente rurais e discriminadas.”

Violência de todos os tipos

Um dos grandes problemas do mundo digital é a assimetria nas relações entre o que hoje se denomina Norte global, a parte teoricamente mais desenvolvida do planeta, e Sul global, a sua contraparte ainda em desenvolvimento.

“O evento discutiu como criar relações mais simétricas, a partir da ideia de que há muitas tecnologias criadas no Sul global que são mais representativas, e que podem ser usadas em países com problemas similares”, observa Paulo Rogério. “No caso do Vojo, a tecnologia não foi desenvolvida no Sul, mas está sendo adaptada aqui, e a ideia é que o Brasil seja o país a liderar o seu desenvolvimento.”

Outro problema: não basta dar às pessoas a oportunidade de falarem. É preciso lhes dar condições de serem ouvidas. Como resolver isso? “Em relação ao Vojo, a ideia é, justamente, fazer com que as histórias sejam ouvidas. Estamos trabalhando para que rádios comunitárias e públicas, e a mídia de um modo geral, tenham acesso a esses conteúdos e escrevam histórias a respeito.”

Que ninguém espere lendas ou contos de fadas: o que a parte esquecida da Humanidade tem para contar são histórias de desastres ambientais, de remoções forçadas, de desigualdade racial e de violência de todos os tipos.

Cora Rónai é colunista do Globo


Postado por SILVÂNIA BASTOS DA SILVA

POR UMA INFÂNCIA SEM RACISMO


Ao abordarmos a temática do racismo, geralmente visualizamos este comportamento apenas em adultos. É possível que tal preconceito se manifeste em crianças? Selecionamos um vídeo que trata de uma campanha da UNICEF com o intuito de promover uma infância sem o racismo.

Assista, compartilhe e comente!



Além disso, a Campanha pontua Dez maneiras de contribuir para uma infância sem racismo:

1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer - contextualize e sensibilize! 

3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no Conselho Tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial. 

8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e dos adolescentes estão aprendendo sobre a história e cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Fonte: http://www.unicef.org/brazil/pt/multimedia_19297.htm


Postado por SUELLEN DE JESUS REIS

terça-feira, 20 de maio de 2014


SERÁ QUE O RACISMO ESTÁ

 EXTINTO EM NOSSO PAÍS?

Vejamos essa interessante reportagem da Revista RAÇA BRASIL que destaca pontos significativos.

O RACISMO ESTÁ CRESCENDO

O relator da ONU encarregado de avaliar a discriminação no mundo, Doudou Diène, diz que o preconceito é cada vez maior em muitos países e que no Brasil ele está profundamente arraigado em toda a sociedade. 

POR DAYANNE MIKEVIS

Quais são as manifestações de discriminação e racismo atualmente? 

A primeira delas é no plano econômico, social e político. Isso inclui a educação, habitação e todos os indicadores sociais. Pode-se verificar no Brasil manifestações concretas e materiais do racismo. Uma das mais importantes é a própria invisibilidade dessas comunidades na estrutura de governo, da economia e dos meios de comunicação. É como se o Brasil vivesse em dois mundos no mesmo país. Há o mundo da rua, multicultural, vibrante e caloroso. Mas no que diz respeito às estruturas de poder, há um Brasil diferente, que não reflete essa diversidade, caracterizado pelo ocultamento de comunidades de ascendência africana e indígena, entre outras. Vi o mesmo nos meios de comunicação. Depois de gostar muito da rua brasileira, as imagens que vejo na TV parecem que vêm do cosmo. Não correspondem à rua. O Brasil tem uma peculiaridade que já observei em outros lugares onde existe também essa discriminação histórica: quando o mapa da organização social e política coincide com o mapa das etnias marginalizadas, é sinal de um racismo estrutural muito forte. Só que o racismo não se resume a isso. Existe também no âmbito cultural, dos valores e das identidades. E aí também percebi que o impacto do racismo é muito forte. Muita gente que efetivamente pertence a determinado grupo não quer ser vista como negra ou de outra determinada etnia. E quando em um país as pessoas se recusam a reconhecer aquilo que elas são é porque a ferida do racismo é muito marcada e a negação de si próprio, de sua identidade, é a expressão dessa discriminação. Percebi também que o aspecto cultural foi usado no Brasil como máscara e como álibi do racismo. Em Salvador, há uma grande vitalidade cultural da comunidade de ascendência africana, como a música, a culinária e o candomblé. No entanto, esse vigor multicultural não se traduziu em uma diminuição do racismo na cidade, nem na sua estrutura política.

Quais as são as soluções para o problema? 

O Brasil fez um esforço considerável na elaboração de um status jurídico contra o racismo, pela legislação, pela criação de estruturas no aparelho de Estado, em especial a Secretaria pela Igualdade Racial, Seppir, com políticas de ação afirmativa e, sobretudo, no aspecto jurídico. Não há dúvida de que mostra uma vontade de acabar com o racismo. A lei e a constituição brasileira são os documentos que o Brasil se deu para combater o racismo de uma maneira clara e firme. A única questão é a aplicação dessa legislação. Vi duas realidades muito complexas no Brasil. De um lado, conheci pessoas com vontade de lutar contra a discriminação. Eu sei, por exemplo, o que acontece nos bancos e a maneira como o Ministério Público se empenha em fazer com que a lei seja respeitada. Mas encontrei entre dirigentes locais e nacionais, altos funcionários da Polícia Federal e alguns juízes nos Estados não apenas a velha desculpa da democracia racial, mas também a falta de empenho em aplicar a política federal de combate ao racismo. É preciso que a vontade política expressa na esfera federal seja aplicada no plano regional.

Revista RAÇA BRASIL – Editora Escala. Texto retirado do site UOL em 04 de maio de 2014. 

Disponível em: http://racabrasil.uol.com.br/Edicoes/93/artigo12649-1.asp/


Postado por DAIANADE SOUZA FRANCO MILANI